sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Origem de Serrinha na Bahia

 Texto de  http://emserrinha.blogspot.com/2011/04/historia-de-serrinha.html



Serrinha teve seus primeiros habitantes os índios Cariri, designação dada as primeiras famílias de línguas indígenas do sertão do Nordeste, o grupo de etnia local mais presente eram os Biritingas. Entretanto foi a chegada do português Bernado da Silva, comandante de uma expedição de colonização portuguesa, em 1715, que a organização urbana da cidade se deu. Assim, foi iniciada a construção de uma capela sob a invocação da Senhora Santana, já que a igreja católica estava diretamente ligada ao processo de colonização realizada pelos portugueses. A capela era filiada a freguesia de São João de Água Fria. A esse tempo o povoado já possuía 16 casas cobertas de telhas de cerâmica e servia de pousada aos visitantes, comerciantes e tropeiros que se destinavam ao Rio São Francisco, sendo que por haverem na época algumas nascentes, muitos dos viajantes tinha na região um local de descanso para eles e os animais (gado).
Em 1º de junho de 1838, a lei nº 67 criou o Distrito de Paz de Serrinha, e levou a capela à categoria de paróquia própria, pelo Arcebispo D. Romualdo Antônio Seixas. Em 24 de outubro de 1763 foi nomeado capelão o Pe. Antônio Manuel de Oliveira.
Presume-se que o ano de 1646, a igreja católica deu início ao processo catequisação dos índios Biritingas, os quais viviam na região.
Pela Lei Provincial nº1.069 de 13 de junho de 1876, foi o Arraial de Serrinha elevado a categoria de Vila e criado o Município de Serrinha, com território desmembrado do município de Purificação dos Campos, sendo inaugurada a 11 de janeiro de 1877. A Vila de Serrinha recebeu foros de "cidade" pelo Ato Estadual de 30 de junho de 1891, assinado pelo Barão de Lucena, fato que constou da data de 04 de junho de 1891 do Conselho Municipal de Serrinha. A instalação solene da cidade ocorreu em 30 de agosto de 1891 segundo consta da Ata do Conselho Municipal de Serrinha do referido dia.



Antiga fábrica de tecelagem de Serrinha - Hoje o atual Colégio Estadual Rubem Nogueira.
Praça Luiz Nogueira

Grande Hotel de Serrinha, atendia a estação ferroviária da cidade, mais luxuoso hotel que a cidade possuia. Hoje o Hospital Geral de Serrinha

Estação Ferroviária de Serrinha.

GEOGRAFIA DE SERRINHA

A cidade de Serrinha se localiza a 173 quilômetros a noroeste da Capital da Bahia, Salvador. Conhecida como a entrada do sertão baiano, fica a aproximadamente 379 metros de altitude. Local de um clima agradável e boa hospitalidade.
A cidade possui uma vegetação mista, nas áreas de serra predomina-se características de floresta estacional, uma transição da Mata Atlática com o serrado, sendo comum árvores de medio porte com até 15 metros de altura, como as Massarandubas, Jurema, Umbuzeiros, Juazeiro, Angico. Porém são regiões que sofrem bastante com o desmatamento, pela necessidade de famílias que tem sua renda na retirada de lenha das matas, sendo poucos os lugares que ainda se encontra uma mata preservada.
Em regiões mais baixas aparece uma mescla de floresta estacional com a caatinga, sendo visível sua mata de cor acizentada em boa parte do ano, com muitos arbustos espinhosos e bromélias.
O clima do Município varia entre o semiárido e o sub úmido, com uma temperatura média entre 24ºC a 32ºC no verão e no inverno entre 15ºC e 28ºC. Possuindo noites muito frias.

Blog Ciência em Sefrias.


Trecho da praça Manoel Vitorino (Atual Luiz Nogueira)
Após trabalharmos por duas semanas com as turmas de segunda, terça e quarta com a história de Serrinha, conseguimos produzir esse texto contando um pouco sobre o que achamos. Pesquisamos na internet (Sites como o da Prefeitura de SerrinhaBlog do Samuel Pedro entre outros sites) e em livros (Minhas lembranças de Serrinha - Glorinha Valverde; Serrinha A colonização portuguesa numa cidade do sertão da Bahia - Tasso Franco; e Conhecendo Serrinha História & Geografia - Produzido pela UEFS).




História de Serrinha

Primeiros Moradores:

Serrinha tem como seus primeiros habitantes os índios da nação Cariris, designação dada as primeiras famílias de língua indígenas do sertão do Nordeste, o grupo de etnia local mais presente eram os Biritingas. Esses índios viviam da caça, da pesca, da coleta de frutos silvestres e do cultivo de milho e da mandioca. Os índios da região de Serrinha mudavam bastante de lugar, sempre que os períodos de seca faziam os alimentos e a água ficarem difíceis, era preciso procurar novos locais, onde houvesse comida e água para toda a tribo.

Fundadores:

O fundador foi o português Bernardo da Silva, comandante de uma expedição da colonização portuguesa. Em 1715 os colonizadores portugueses abriram a estrada dos baianos que ligava a capital da colônia com o alto sertão do São Francisco, e foi na capitania da Bahia que surgiu a fazenda Serrinha com a finalidade de criar gados e serviu de local de descanso de homens e animais. Bernardo da Silva e família tiveram o grande mérito de transformar Serrinha no povoamento mais importante da região. Por ser um homem de posse e empreendedor, além de possuir numerosa família, o local se expandiu como centro aglutinador e pousada para comerciantes e tropeiros, formando-se também um centro social e religioso.

Quando Virou Cidade


Frente da Igreja Velha
Em 1716, a formação de um pequeno núcleo residencial situado na fazenda Tambuatá, deu origem a uma povoação denominada Serrinha. Pela lei provincial numero 1.069 de 13 de junho de 1876, foi o arraial de Serrinha levado a categoria de vila e criado o Município de Serrinha com território desmembrado do município de Purificação dos Campos (atual município de Irará), sendo inaugurado a 11 de janeiro de 1877.  Logo no início da fundação da cidade, o povoado já possuía 16 casas com telhas. A vila de Serrinha recebeu o título de cidade pelo ato Estadual de 30 de junho de 1891 assinado pelo Barão de Lucena, fato que constatou da data de 8 de junho de 1891. A instalação solene da cidade ocorreu em 30 de agosto de 1891 segundo consta a ata do Conselho Municipal de Serrinha do referido dia.


Feira de Mercadoria na Praça

Festas Culturais

Em Serrinha existem diversas festas culturais, entre elas estão:

Procissão do Fogaréu – realizada desde 1932, é o momento mais esperado das festividades da Semana Santa no município pela comunidade católica.

Desfile da Vaquejada
Vaquejada – Ela é considerada um dos maiores eventos de Serrinha, participam vaqueiros e peões de toda a região. A vaquejada começou em 1967 quando Valdete Carneiro e Neném de Maroto resolveram criar um evento que significasse a benção e a confraternização dos vaqueiros da região, com o passar do tempo a festa ganhou força e prestigio e os prêmios simbólicos tonaram-se valiosos.

Coreto de Serrinha
Festa da Padroeira – A devoção a Santana vem da época dos primeiros colonizadores portugueses, sendo mantida na região do município de Serrinha por Bernardo da Silva, que segundo a tradição, construiu a capela em louvor a esta santa. Sua festa é comemorada todo ano no dia 26 de julho, com procissão saindo da igreja nova, percorrendo as principais ruas da cidade com um grande número de fiéis.
Festas Juninas – O São João é uma das festas típicas mais comemoradas do Nordeste brasileiro. Aqui em Serrinha não é diferente. Na cidade, e em quase todos os povoados, há a realização de quadrilhas durante o mês de junho, com a comemoração das festas de Santo Antônio, São João e São Pedro.
Samba de Roda – Acontece em diversos povoados na cidade de Serrinha, é uma roda de pessoas tocando instrumentos como tambor, pandeiro, cavaco, agogô, sanfona, entre outros, as outras pessoas que não estiverem tocando os instrumentos ficam dançando no centro da roda, quando está tocando o som o pessoal samba, quem não estiver sambando fica batendo palma acompanhando o ritmo da música.


Atual Escola Rubem Nogueira

Quilombo da Flor Roxa e Comunidade de Praianos

No povoado de Bela Vista, havia um quilombo denominado de Flor Roxa ou São Caetano. Os escravos que moravam lá eram fugitivos das várias fazendas existentes na região. O quilombo cresceu a ponto de incomodar os fazendeiros locais. Porque acreditaram ser este agrupamento uma ameaça as suas propriedades e um mau exemplo para os escravos que ainda estavam no cativeiro.
Formou-se na primeira metade do século XIX a sudoeste da arraial, em direção do Candeal. Foi no Sopé e no interior da serra que se instalou o quilombo. O nome Flor Roxa vem de uma planta especial que tem flores roxas, e acontece em toda parte deste território, desde os terrenos “bons” aos com grandes “lajedos”.
O senhor Miguel Carneiro da Silva líder político da época conseguiu a vinda de José Joaquim de Araújo para acabar com o quilombo. A missão de José Joaquim teve sucesso e ele destruiu o Quilombo da Flor Roxa. Esse homem veio até Serrinha para acabar com os ditos “fora da lei” mas, com o fim do quilombo tornou-se um bandido perigoso, incomodando aqueles que o haviam pago.
Ainda hoje existem vestígios deixados à muitas décadas pelos primeiros habitantes do lugar. E pelo capitão do mato.
A nomeação para Praianos começou ser dada para a comunidade por volta de 110 anos atrás – 1900 – quando se deram várias idas e vindas, a sua terra natal, onde Fermino Praiano e seus familiares partiam para as “praias como o povo aqui diz” em busca de trabalho.


Informações Geográficas

Área: 624,228 Km²
População: 76 762 hab/IBGE 2010
Altitude: 379m
Clima: Semiárido à Subúmido
Bioma: Caatinga
Distância até a Capital: 173 Km

Mais informações: IBGE

Datas Históricas


Inauguração da Ferrovia
1880 - em 18.11.1880 inaugurada a estação ferroviária de Serrinha.
1896 - em 19 de abril de 1896, Fundação da Filarmônica 30 de Junho.
1917 - inaugurado o Coreto Municipal da Praça Luís Nogueira.
1932 - Procissão do fogaréu.
1954 - Inaugurado o Colégio Estadual Rubem Nogueira - Primeiro Ginásio do interior da Bahia.
1958 - Inaugurada a Escola Normal de Serrinha.
1967 - A História da Vaquejada de Serrinha, começou na segunda semana de setembro desse mesmo ano, através dos seus criadores Valdete Carneiro e Neném de Maroto quando tornaram conhecido este tipo de evento na região.
1968 - inaugurada a sede da Vaquejada Fernando Carneiro.
1968 - Inaugurado o abastecimento de água na sede do município.
1968 - Chega a Energia elétrica.
1968 - Construído o Hospital Santa Casa de Misericórdia - Hospital Santana.
1975 - Passa a funcionar a telefonia local da cidade.
1977 - Inaugurado o Estádio Municipal Mariano Santana.
1987 - Inaugurada a Praça Morena Bela.
1987 - Inaugurada a Rodoviária.
1987 - Inaugurada a Biblioteca Municipal Edvaldo Boaventura.
1987 - Inaugurada o Campus da UNEB - Serrinha.
1996 - Filarmônica 30 de Junho completa 100 anos
1998 - Inaugurado o Ginásio de Esporte.
1998 - Conhecido como um dos mais equipados parques de Vaquejada do País, o Parque Maria do Carmo foi inaugurado em comemoração aos 30 anos de Vaquejadas em Serrinha.
2001 - Desmembrado o distrito de Barrocas.
2005 - Inaugurado o Presídio de Serrinha.
2005 - Demolido o Parque de Vaquejada Fernando Carneiro.
2007 - A Vaquejada de Serrinha completa 40 anos.

Mudanças Históricas do Território


Rua da Estação
1838 - Distrito criado com a denominação de Serrinha (Lei Provincial 67 de 1-6-1838)
1876 - Elevado a categoria de cidade com a denominação de Serrinha
1923 - Criado o distrito de Lamarão e anexado ao Município de Serrinha
1953 - Criados os distritos de Barrocas e Itapiru (ex-povoados) e anexados ao município de Serrinha.
1956 - Desmembra do município de Serrinha o distrito de Araci. Elevado à categoria de município.
1962 - Desmembrado de Serrinha o distrito de Biritinga. Elevado à categoria de município.
1962 - Desmembra do município de Serrinha o distrito Itapiru. Elevado à categoria de município com a denominação de Teofilândia.
1962 - Desmembra do município de Serrinha o distrito Lamarão. Elevado à categoria de município.

2000 - Desmembra do município de Serrinha o distrito de Barrocas. Elevado à categoria de município.

Referências

Livros: 

CAMPOS, Maria de Fátima Hanaque. Conhecendo Serrinha: História & Geografia. Feira de Santana: UEFS, 1998.

FRANCO, Tasso. Serrinha: a colonização portuguesa numa cidade do sertão da Bahia. Salvador: Ojuobá, 2008.

MEINKING, Maria da Glória Valverde. Minhas lembranças de Serrinha. Salvador: Marchete, 2002.


Endereços eletrônicos

Férias: Serrinha. Disponível em: <http://www.ferias.tur.br/informacoes/1045/serrinha-ba.html>. Acesso em: 6 jun 2013.

História de Serrinha. Disponível em: <http://www.achetudoeregiao.com.br/ba/Serrinha/historia.htm>. Acesso em: 5 jun 2013. 

IBGE. Disponível em:<http://www.ibge.gov.br/cidadesat/historicos_cidades/historico_conteudo.php?codmun=293050>. Acesso em: 10 jun 2013.

Prefeitura de Serrinha. Disponível em:< http://www.serrinha.ba.gov.br/>. Acesso em: 5 jun 2013.

Samuel Pedro: o escritor. Disponível em: <http://samuelpedroescritor.blogspot.com.br>. Acesso em: 10 jun 2013.

Vaquejada: Parque Maria do Carmo em Serrinha. Disponível em: <http://www.vaquejadadeserrinha.com.br/a-cidade-de-serrinha>. Acesso em: 10 jun 2013. 


terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Lampião no norte da Bahia(Tucano, Queimadas, Quijingue, Pombal), também esteve em Araci.

 


Já se tinha notícias da presença do maior cangaceiro do século XX, Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, considerado o rei do cangaço - 1927/1940 - à Bahia no ano de 1928. A possibilidade de ter levado Lampião a cruzar o Rio São Francisco rumo aos Sertões da Bahia, seria, a que tudo indica, a falta de opção. Em todo o Nordeste só restavam Bahia, Sergipe e Piauí, onde poderia hospedar-se com o resto dos seus cabras.
O ataque a grandes centros urbanos, acirrou os ânimos das policias de alguns estados nordestinos, visto que houve repercussão nacional dos episódios. Daí por diante, Lampião não teria trégua; o jeito era dispensar muitos de seus cabras. Para facilitar a É fuga da furiosa perseguição policial, quanto menos gente, melhor.
Nessa altura, coligaram-se as policias de Pernambuco, Ceará, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte e durante vários meses investiram numa perseguição implacável a todo o bando. Não existia outra alternativa senão um dos três estados restantes do nordeste.
Para Piauí, Lampião jamais iria, primeiro porque lhe era terra desconhecida e segundo porque era o estado mais pobre, entre os pobres do nordeste. O bandoleiro sabia por experiência que na Bahia iria encontrar condições favoráveis.
Se o Capitão Virgulino não tivesse tentado ocupar Mossoró pela força, então o maior município do interior do Rio Grande do Norte, ou tivesse conseguido, provavelmente a Bahia jamais o tivesse hospedado em seu território.
Quando desembarcou aqui na Bahia, em 21 de agosto de1928, Lampião se quisesse, poderia ter tentado reconquistar a sua condição outrora de homem livre, trabalhador, honesto, produtivo. Não o fez. A índole de bandido calava mais forte.
Ao pisar em terras baianas, Virgulino Ferreira da Silva, já tinha 31 anos de idade, ostentava a patente de capitão, título de que muito se orgulhava e fazia alarde. Além de Mossoró (1927), assaltara, em lance de grande atrevimento, Água Branca (1922) em Alagoas, quando saqueou a baronesa Joana Viana de Siqueira Torres, despojando-a de jóias e moedas de ouro do Império, com as quais passou a enfeitar-se. Esse episódio, somado ao frustrado assalto a Mossoró, à patente de Oficial do Exército e às inúmeras batalhas em que se envolvera (Baixa Grande, junho de 1924; Serrote Preto, fevereiro de e 1925; Serra Grande, novembro de 1926), bem como ao saldo de mortes que lhe vinha no rastro, davam-lhe prestigioso renome em todo o Brasil e até no exterior.
Um dos primeiros contatos de Lampião em terras baianas foi em Santo Antônio da Glória. Lampião partira da Serra Negra (em Floresta, Pernambuco, seu estado Natal), ladeou riacho dos Mandantes de onde passou para as márgens do Rio São Francisco. Em seguida avançou pelas propriedades Sabiuçá e Roque, cruzou o velho Chico e ganhou as terras baianas. Aqui seu itinerário foi o seguinte: Serra Tona, Fazenda Salgado e o povoado Várzea da Ema, município de Glória.
Após várias andanças e as notícias ocultas, somente em dezembro é que Lampião ressurge no cenário baiano, exatamente no dia 15 de dezembro de 1928, na vila do Cumbe (atual cidade de Euclides da Cunha). de lá partiram rumo a Tucano, onde concede uma entrevista a um jornalista da terra e recebe a notícia que mandaram buscar reforço policial na cidade de Serrinha, o que apressou a saída do bando do município. Partiram de lá às onze horas da noite, aproximadamente, em destino a Pombal.
Desde aqueles sábado, 15 de setembro de 1928, que já se sabia que Lampião encontrava-se no município de Tucano, pois todos os viajantes, que lá procediam, noticiavam aos habitantes de Pombal da visita do então cangaceiro.
Lampião e mais sete cabras do seu bando chegaram à vila de Pombal por volta das seis horas da manhã, um domingo do dia 16 de dezembro de 1928.
O Sr. Paulo Cardoso de Oliveira Brito, mais conhecido como "Seu Cardoso", narrou, detalhadamente, como foi a visita de Lampião na Vila de Pombal:
"Eu era intendente, na época. Desde o sábado à noite se corria o boato na rua que Lampião estava na cidade de Tucano, mas de paz.
Eles chegaram de manhã, bem cedinho, eu estava deitado e o empregado estava varrendo o terreiro da casa (o velho sobrado dos Britto), abordaram o empregado e mandaram me chamar. Com certeza eles já haviam se informado quem era o administrador da vila. O empregado subiu e me avisou, mas não soube dizer quem era; fui até a porta às presas e perguntei a ele o que queria. Ele se identificou por Coronel Virgulino.
Tomei um susto ao perceber que estava diante do mais temido bandido do sertão. Eram oito homens, sete ficaram encostados no carro e só o capitão tinha se aproximado.

Disse que queria tomar café. Mandei logo providenciar. Perguntou quantos soldados havia na vila; respondi que apenas três; mandou avisá-los para não reagir, pois estaria ali apenas de passagem ".
O próprio empregado foi até o quartel levar a tranqüilizadora notícia, transmitindo-a ao cabo Esmeraldo, comandante e chefe do destacamento.
Lampião e seus cabras de deliciaram com o café com cuscuz que lhe ofereceu o anfitrião. Mas tarde, o bando chegou até o quartel, desarmaram os militares, intimando-os a acompanhá-los até a cidade mais próxima para onde iam. Lampião disse em tom sarcástico: “... assim vou mais garantido porque estou com a força".
Antes de saírem, Lampião e seus cangaceiros foram conhecer a Vila Alegre com a boa hospitalidade a eles oferecida. Para deixar uma ótima impressão de sua visita à Vila de Pombal, perguntou se havia um fotógrafo; mandaram chamar Alcides Franco, alfaiate e maestro da Filarmônica XV de outubro, que possuía uma máquina fotográfica. Pediu que batesse uma chapa do bando para ali ficar de recordação (essa foto é uma das mais nobres no acervo sobre o cangaceiro, presente em quase todos os livros, sobre o bandoleiro).
Por volta de oito horas da manhã o bando saiu da vila, partindo espalhafatosamente com destino a Bom Conselho (atual cidade de Cícero Dantas).
A partir daí Lampião continua suas andanças por terras baianas. Em 22 de dezembro de 1929, vindo de Capela, interior do Estado de Sergipe, passando por Cansanção, interior da Bahia, o Capitão Virgulino chega a Queimadas, cidade próxima a Monte Santo. No cumprimento de mais uma de suas façanhas, Lampião, nessa cidade, realizou um dos maiores saques cometidos na Bahia, acompanhado de gravíssimos crimes e orgias de sangue.
Após sair de Queimadas, tem-se notícias do bando dos cangaceiros no arraial de Triunfo (atual cidade de Quijingue), onde festejaram e saquearam o pequeno comércio local.
Ao amanhecer do dia 25 de dezembro de 1929, portanto três dias após o acontecido na cidade de Queimadas, mais uma vez Lampião e seus cabras chegam às redondezas de Pombal.
Nesta mesma manhã, o Sr. Cardoso recebeu um bilhete, mandado por Lampião, pedindo uma quantia exorbitante de dinheiro. A quantia era tão grande que se reunisse todo dinheiro da Vila, não pagava.


O Sr Cardoso temendo uma represália por parte do cangaceiro, se não enviasse pelo menos uma boa parte de dinheiro e uma desculpa bem, convincente, conseguiu o equivalente à metade do pedido, mandando pelo mesmo portador que trouxe o bilhete.
Não se registrou nenhuma agressão ou tentativa de saque na Vila de Pombal, certamente o Capitão Virgulino aceitou as desculpas do administrador local ou imaginou outra hipótese, como por exemplo, a essa altura, talvez já se encontrasse ali reforço policial e o bilhete que enviara dava testemunho de sua presença nas imediações. Dava tempo muito bem da força preparar uma emboscada caso ele tentasse invadir a vila. O certo é que Lampião dotado de muita astúcia e arquiteto das mais engenhosas proezas, sem dúvida tivesse pensado inúmeras desvantagens em tomar a Vila de Pombal para assalto.
Na mesma manhã do Natal de 1929, o bandoleiro chega ao distrito de Mirandela. Foi previamente informado que o destacamento era constituído de apenas cinco praças e um comandante; envia então uma intimação ao sargento, com os seguintes termos:
"Sargento arretire daí levando sua pessoa que preciso intra neste arraiá agora se você não sai ajusta conta com eu Capitão Virgulino vurgo Lampião".
Certamente o comandante do destacamento ignorava o recente acontecimento de Queimadas, onde Lampião enfrentou muito mais soldados do que os ali existentes. O sargento Francisco Guedes de Assis demonstrou disposição e evitou acatar ao intimato, contrariando ao desejo do cangaceiro, mandou-lhe resposta num outro escrito, com os seguintes dizeres:
"Bandido Lampião, estou aqui com a edificante missão de defender a população do Arraial contra a sua incursão e do seu bando. Se você entrar lhe receberemos a bala".
Pouca gente sabe desse episódio que aconteceu em Mirandela, porém, não só foi contado por moradores que vivenciaram o caso, como também foi encontrado um registro escrito por um dos cangaceiros, por nome de Ângelo Roque, confirmando o fato. O registro manualmente escrito dizia:
"Seguimo para Mirandela. Mandemo dizer ao sargento, qui tava distacado lá, que nóis, ia passa ali, sem arteração. Ele arrespondeu pelo portado qui nóis pudia passa pru fora da rua que ele num botam persiga atraiz. Mais si nóis intrasse dento da rua levava tiro. Isso foi num dia vinte i cinco di dezembro. Nóis arrezorveu ataca.
Um pade tava na igreja dizeno missa. Era um sargento Guedes. Disparemo as arma pra dento da rua qui istrondô i avanecemo pra frente".
O destacamento de seis militares, recebeu espontaneamente, a adesão de dois civis: Manoel Amaral do Nascimento e Jeremias de Souza Dantas.
Guedes divide sua pequena tropa em três grupos, colocando-os em três pontos diferentes e estratégicos. Eram dezessete bandidos contra seis militares e dois civis. Os bandidos invadem o arraial, atirando em todas as direções; Mirandela é heroicamente defendida.
A luta dura duas horas e meia, aproximadamente, apesar da desvantagem dos defensores. Em determinado momento, o fogo dos sitiados começa a decrescer. Os bandoleiros sentiram que estavam ganhando a batalha e acirraram o ataque.
Manoel Amaral do Nascimento foi ferido e, enquanto era conduzido pelo sargento para o interior de uma casa, é morto à queima-roupa por um bandido que se presume ter sido Alvoredo. Guedes ainda atira no cangaceiro, que pede socorro aos companheiros. Ao notar que os cangaceiros atendem ao apelo de socorro, Assis corre e se refugia no mato. Jeremias de Souza Dantas, popular Neco, o outro civil, também é assassinado.
Depois do acontecido, um cangaceiro por nome de Labareda, documenta o fato em uma folha de papel, reproduzindo o que se passou no local:
"Lampião entro pulo cento da rua, junto com Zé Baiano, Luiz Pedo e outros. Zé Baiano tinha sumido de nóis dois dia só i tomo partido das disgracera de Queimada. Us macaco de mirandela inda brigam muito mais porem terminaro debandano. I si escondero pru perto cum pirigo pra nóis di tiro imboscados. Morreu nessa brigada um camarada pru nomi Manoé de Mara. Matemo uns dento di casa i um macaco materno pruquê pidiu paiz cum lenço branco na boca du fuzi i ninguém intendeu ou num quis intendê. Tamem cangacero num tinha esse negoço di faze as paiz nu meio das brigada. Ele teve di morre pois teve brigano. Tumemo us dinhero pussive nu começo i nas casa”.
O saldo da guerra: morreram os dois civis, um dos militares, sendo que os outros, inclusive o sargento Guedes, fugiram, embrenhando-se no mato; também foi ferido um cangaceiro por nome de Luiz Pedro.
O bando sai de Mirandela, carregando o cangaceiro ferido, e vitoriosos, ganham o mato, como sempre, sem destino. Tem-se notícias do bando, mais tarde, de que estariam num esconderijo, perto de Pinhões, povoado de Euclides da Cunha, em um sítio é denominado Olho D'água.

Passagem dos revoltosos da Coluna Prestes por Pombal e Tucano no norte da Bahia

 

A Coluna Prestes

A organização social civil, no Brasil, durante o período em que o militarismo chefiava os poderes administrativos do País, nunca teve vez, até porque os militares temiam a perder o poder. Toda e qualquer aglomeração era proibida e as poucas que aconteceram foram exterminadas; numa família se alguém discordasse das normas ditadas pelos militares, todos pagavam, sem que ninguém pudesse ao menos contestar.
Os brasileiros viviam um verdadeiro "inferno". Eram privados do maior bem que o ser humano tem: a liberdade.
O comunismo avança o leste europeu, propondo-se a dominar o mundo. No Brasil essa idéia foi copiada, principalmente por estudantes rebeldes e revoltados com a ditadura militar. Os estudantes, contrariando as leis militares, tentavam a todo custo derrubá-los do poder e proclamar a liberdade para o povo brasileiro. Foram o principal alvo de perseguições movidas pela cúpula de inteligência militar. Esses "baderneiros da ordem social" como eram chamados pelos militares, foram taxados de comunistas, como se o comunismo fosse a pior coisa do mundo. Naquele momento as guerras que estavam acontecendo era justamente porque países comunistas estavam avançando contra alguns países capitalistas; o comunismo passou a ter sinônimo de guerra, de sangue e de dor.
Qualquer manifestação, partindo da população civil, que acontecesse no Brasil, estrategicamente, os militares diziam estar partindo dos comunistas. E, qualquer comunista, no Brasil, era tido por assassino, bandido dos mais perigosos.
Mesmo sendo difamados, alguns heróis não se renderam; a eles hoje devemos essa democracia. Foram pessoas que lutaram contra o regime autoritário dos militares, para que hoje a liberdade prevaleça. Um desses combatentes chamava-se Luiz Carlos Prestes, considerado "o cavaleiro da esperança", líder do movimento intitulado Coluna Prestes. Na fuga incansável das perseguições do governo antipopular e antidemocrático do presidente Artur Bernardes, a Coluna Prestes viajava de cidade em cidade pregando a liberdade e a igualdade para a população brasileira.
Os integrantes da Coluna Prestes eram conhecidos como "Os Revoltosos"; sua fama era tão deturpada, que quando se aproximavam de uma cidade, se a notícia chegasse primeiro, a população se trancava em suas casas ou escondiam-se nas imediações; registrou-se até o abandono temporário da população de alguns municípios, por medo.
Essa mesma coluna liderada por Luiz Carlos Prestes passou por Pombal. Os Revoltosos ou Coluna Prestes chegaram em Pombal no dia 26 de junho de 1926. Ao contrário do que aconteceu em muitos municípios, por onde a coluna passou, os pombalenses em mais uma prova de sua hospitalidade, não abandonaram suas casas e correram para recepcionar o Cavaleiro da Esperança; alguns demonstraram medo, mas, não demorou muito para que estivessem familiarizados com os caçadores de liberdade.
Escreve Lourenço Moreira Lima em: "A Coluna Prestes - Marchas e Combates" (conforme "O Marquês de Pombal e as imagens da verdade", pág. 17 - CBR - Rio):
"Seguimos (de Tucano) no dia 26, para a Vila de Pombal, onde chegamos às nove horas, percorremos cinco léguas por um grande tabuleiro. A população de Pombal estava na vila.
Fomos recebidos pela respectiva banda de música, que foi se formando aos poucos. Apareceram primeiro o bumbo e os pratos, que iniciaram um dobrado sem esperar pelos outros instrumentos. Estes, à proporção que chegavam, iam se fazendo ouvir, e, dentro em pouco, a filarmônica se integrou, exibindo seu repertório, num barulho ensurdecedor de guinchos desafinados que nos causavam arrepios terríveis.
Valia, porém, a boa intenção desses amáveis patrícios, que festejavam a nossa passagem por aquela vila, em vez de pretenderem impedi-la à bala. As famílias de Pombal tratam-nos com a maior gentileza, oferecendo-nos mesas de café e doces em várias casas, numa demonstração franca e sincera de simpatia e de confiança no cavalheirismo das nossas forças, apesar da campanha difamatória que os adversários continuavam a nos mover".

 http://rdopombal.blogspot.com/search/label/08.%20A%20Coluna%20Prestes

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

José Lima Pedreira de Freitas: Filho de médico serrinhense tornou-se cinentista em São Paulo investigando a doença de Chagas

Arôvel Lima
Historiador

Professor José Lima Pedreira de Freitas
O Prof. José Lima Pedreira de Freitas, nasceu aos 12 de janeiro de 1917, em Mococa Estado de São Paulo, e era filho do Dr. José Pedreira de Freitas e D.Alcina Lima Pedreira de Freitas. O pai dele nasceu em Serrinha na Bahia no ano de 1889, formou-se na Faculdade de Medicina da Bahia. Depois foi para São Paulo, tendo inclusive tronado-se acionista de uma Companhia de Luz na Mococa. Faleceu em 16 de setembro de 1941, aos 52 anos de idade.

Departamento de Medicina Social

Graduou-se pela Faculdade de Medicina de São Paulo (USP) em 1941, tendo a seguir se ligado ao Departamento de Parasitologia da mesma Escola, chefiado por Samuel Pessoa. Concluiu o doutoramento em 1947 e a livre-docência em 1951, ambos com investigações que levaram ao desenvolvimento de métodos laboratoriais para diagnostico da moléstia de Chagas. Em 1947, instalou um Posto de Estudos sobre essa doença em Cássia dos Coqueiros, localidade com elevadíssimos níveis de transmissão à época. No início da década de 1950, colaborou na instalação do Departamento de Parasitologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, para onde se transferiu em 1954 com a missão de criar o Departamento de Higiene e Medicina Preventiva, atualmente designado Medicina Social. As atividades didáticas do novo Departamento, pioneiro no Brasil no ensino da Medicina Preventiva, tiveram início em 1955 e seguiram uma linha inovadora, tendo como base o ensino da epidemiologia. Entre as inovações implementadas destacam-se: integração das atividades de ensino com os departamentos clínicos, prática do aprendizado fora dos muros da universidade, em estreito contato com as populações das áreas periféricas – de modo a incutir nos alunos a noção de interdependência entre condições de vida e de saúde –, e a incorporação da bioestatística. Em Cássia dos Coqueiros, iniciou, já em 1964, com médicos residentes e estudantes de medicina, atividades de atenção primária à saúde da população local, prática que se mantém até os dias de hoje como parte do internato de sexto ano dos alunos do Curso Médico. Na mesma localidade, desenvolveu diversas investigações sobre controle em campo da doença de Chagas, das quais a mais relevante – objeto de sua tese de cátedra, em 1963 – refere-se ao desenvolvimento do chamado “expurgo seletivo”, técnica revolucionária de combate a triatomíneos que foi posteriormente incorporada por todos os programas nacionais na América Latina, tendo sido diretamente responsável pela virtual interrupção da transmissão vetorial da doença no Brasil. Falecido precocemente, em 1966, Pedreira de Freitas foi uma figura pioneira, visionária, inovadora, grande mestre e cientista, que deixou um legado imenso de contribuições ao ensino e à pesquisa na Medicina Preventiva.


O PROFESSOR JOSÉ LIMA PEDREIRA DE FREITAS É PATRONO DO CENTRO ACADÊMICO DA FACULDADE DE MEDICINA DO NORTE DO PARANÁ (LONDRINA)


Aula inaugural do Curso de Parasitologia, dada em 3/3/68 na Faculdade de Medicina do
Norte do Paraná (Londrina), pelo Prof.Samuel B.Pessôa.


Sejam nossas primeiras palavras nesta Faculdade de Medicina do Norte do Paraná de sinceros louvores aos seus estudantes que, em um alto gesto de admiração e justiça, souberam homenagear a memória do malogrado cientista brasileiro, Professor JOSÉ LIMA PEDREIRA DE FREITAS, dando seu nome ao Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina de Londrina.

É sempre com emoção profunda que falo da vida deste grande professor, que foi meu aluno, meu assistente durante longos anos na Faculdade de Medicina de São Paulo e meu amigo inesquecível que muito admirava e respeitava. Roubado tão cedo à sua família, aos seus amigos e à ciência, o notável professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e eminente pesquisador, tornou-se a maior autoridade mundial em doença de Chagas e foi o fundador, no Brasil, da disciplina de Medicina Preventiva, para isto revolucionando os métodos clássicos do ensino da Cadeira de Higiene. De uma extraordinária retidão de caráter, apesar de ter morrido moço, tornou-se figura quase lendária por suas convicções religiosas e filosóficas e pelas suas posições inflexíveis na “defesa da liberdade, da justiça e da dignidade humana”.

O Prof. José Lima Pedreira de Freitas, nasceu aos 12 de janeiro de 1917, em Mococa Estado de São Paulo, e era filho do Dr. José Pedreira de Freitas e D.Alcina Lima Pedreira de Freitas. Após curso secundário feito no Liceu Franco-Brasileiro, Colégio São Luiz e Ginásio São Bento, matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de S.Paulo, por onde se diplomou médico em 1941, após brilhante curso em que teve a oportunidade de conquistar, por duas vezes, o prêmio “Paulo Montenegro”. Realizou curso de aperfeiçoamento na Escola Paulista de Medicina em 1941, e em 1952 e 1953, realizou curso de pós-graduação em saúde pública na Universidade de John Hopkins do E.U.A., obtendo o título de Sanitarista. Em 1943 ingressou no Departamento de Parasitologia da Faculdade de Medicina de São Paulo e dez anos após, em 1953, transferiu-se, na qualidade de Professor-adjunto, para o Departamento de Parasitologia da Faculdade de Medicinas de Ribeirão Preto. Em 1954, foi convidado para professor do Departamento de Higiene e Medicina Preventiva, efetivando-se na Cátedra após brilhante concurso realizado em 1963. Foi neste posto que a morte veio colhê-lo, em pleno exercício de sua atividade de Professor e Pesquisador, da volta da Colômbia, onde fora representar a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto em simpósio sobre ensino médico.

Ao fazer parte do corpo docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, como assistente do Departamento de Parasitologia, na ocasião sob minha direção, o Brasil estava em guerra com as potências nazistas, e a malária representava importante doença endêmica necessitando das maiores pesquisas. Daí ter o Prof. Pedreira de Freitas integrado a equipe de “Estudos sobre malária”, sendo que alguns pesquisadores se dedicavam à Malária Humana, orientada pelo Prof. Ayrosa Galvão, e outros sobre “Malária Aviária”, orientados pelo Prof.Mauro Pereira Barretto. Dedicou-se o Prof.Pedreira de Freitas à malária aviária; os seus 5 primeiros trabalhos dizem respeito a esta parasitose (1943-1945). São neles investigadas a ação de várias substâncias químicas para a terapêutica da malária, bem como o ciclo biológico e os caracteres da infecção determinada pelo Plasmodium galinaceum na galinha. Procurava-se, nesta ocasião, devido à guerra e á escassez de quinina, descobrir um antimalárico autóctone , o que, com a volta à paz e com a evolução dos conhecimentos sobre novos antimaláricos sintéticos, tornaram de menor interesse a pesquisa nesse campo.

Voltou-se, então, o Prof. Pedreira de Freitas para as pesquisas sobre a doença de Chagas, por ter percebido, após um estado clínico sobre a parasitose, realizado com o Prof. Decourt, o atraso em que estavam nossos conhecimentos acerca de numerosos aspectos da doença, principalmente questões ligadas ao seu diagnóstico, epidemiologia, tratamento e profilaxia. Tornou-se o Prof. Pedreira de Freitas o grande especialista sobre doença de Chagas, moléstia gravíssima que incide, segundo os peritos da O.M.S. (1960) da qual o Prof. Pedreira de Freitas era um dos seus membros mais proeminentes, pelo menos em 7 milhões de indivíduos infectados pelo Trypanossoma cruzzi e em cerca de 35 milhões no número de pessoas expostas aos riscos da infecção. Como o mais importante na ocasião era o diagnóstico desta parasitose, dedicou-se ao estudo deste problema, durante anos e tornou-se o nome mais proeminente do mundo neste campo científico. No interessante ensaio “História da Doença de Chagas” escrita em 1963 por Milton Carneiro, antigo professor de Parasitologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Paraná, lê o seguinte a respeito deste fato: “O jovem e ilustre professor de Higiene numa das melhores Faculdade de Medicina do Brasil, a de Ribeirão Preto, é, no mundo o maior conhecedor das questões de diagnóstico da doença de Chagas”.

Sua dedicação ao estudo e solução dos problemas mais importantes da higiene rural brasileira veio de uma sua primeira excursão à Cássia dos Coqueiros (município de Cajurú, Estado de São Paulo), realizada em 1945 quando teve ocasião de fazer observação que ficou clássica sobre a doença de Chagas. Esta refere-se ao proprietário de um armazém na localidade em apreço, que não mais fiava aos moradores da vila, não porque eles não pagassem, mas porque muitos deles morriam de repente, dando-lhe por esse fato, bastante prejuízo. As mortes súbitas eram ocasionadas pela doença de Chagas como posteriormente verificou. Em conferência realizada em 1947 no Centro Médico de Ribeirão Preto (ainda quando Assistente do Departamento de Parasitologia da Faculdade de Medicina de São Paulo) relata assim esta questão: “Numa pequena Vila Cássia dos Coqueiros – no município de Cajurú, vimos levando a efeito uma série de estudos sobre a “moléstia de Chagas”. Desde o início do corrente ano, dispomos lá de um pequeno posto instalado (por nós em cooperação com a Diretoria de Serviço do Interior do Departamento de Saúde de São Paulo, graças ao que realizamos naquela localidade, um inquérito sistematizado sobre esta infecção (Doença de Chagas). Entre cerca de 1.000 indivíduos examinados, moradores das casas infectadas por “barbeiros” (pois praticamente todas as casas o são), pudemos constatar que aproximadamente 50% deles mostram-se infectados pelo T.cruzzi. Entre estes são numerosos os que apresentam formas cardíacas crônicas da moléstia, terminada várias vezes pela “morte súbita”. O Posto Rural que lá fundou resolveu definitivamente a grave questão da doença de Chagas na localidade. Após a morte de Pedreira de Freitas, tivemos a oportunidade de visitar a vila, hoje cidade de Cássia dos Coqueiros, sede do município do mesmo nome; não vimos mais casas de pau-a-pique; o Posto se transformou em um Centro de Saúde com ambulatório e enfermaria; todos os habitantes do município são atendidos e medicados quaisquer que sejam as suas enfermidades; no Centro fazem estágio os estudantes de medicina da Faculdade de Ribeirão Preto, para melhor conhecerem nossos problemas médicos rurais e o que é mais importante, na antiga vila, hoje cidade e em todo o município, desapareceu a doença de Chagas. Tudo obra do grande professor e vosso patrono, o Prof. Pedreira de Freitas.

Seus estudos sobre doença de Chagas podem ser encarados de acordo com os seguintes itens: Diagnóstico, Clínica, Transmissão, Epidemiologia, Tratamento e Profilaxia.

1) Diagnóstico – Relativamente ao diagnóstico publicou estudos fundamentais para o aperfeiçoamento dos métodos de diagnóstico dessa moléstia, quer do ponto de vista parasitológico (métodos para a demonstração de parasita), quer dos métodos imuno-biológicos. Suas contribuições para o melhor conhecimento da sorologia e dos métodos de diagnóstico sorológico da doença em apreço destacam-se por sua excelência e originalidade. Citemos entre outros – “Contribuição para o diagnóstico da moléstia de Chagas, por processos de laboratório” 1947; “Nova técnica de fixação do complemente para a moléstia de Chagas: Reação quantitativa com antígeno “gelificado” de culturas do Trypanossoma cruzzi” (em col. com o Prof. J.O. Almeida). Este trabalho trouxe contribuição essencial para o diagnóstico sorológico da doença, pois afastou várias causas de erro, que muito desmereciam o emprego do antígeno de Davis usando a técnica de Kolmer, como, por exemplo, a instabilidade do antígeno. Foi empregada, com a nova técnica, unidade cinqüenta por cento de hemólise na dosagem do complemento a padronização dos reagentes de acordo com o método quantitativo de Waldsworth e cols. Em torno deste trabalho basilar, publicou vários outros para melhor esclarecer a técnica preconizada e, finalmente, deu à publicidade um trabalho que podemos considerar como definitivo sobre o assunto, que denominou “Reação de fixação do complemento para diagnóstico da moléstia de Chagas, pela técnica quantitativa que constituiu sua tese de Livre-docência, defendida em 1951 e aprovada com distinção, grau 10. Ainda neste campo, estudou aspectos particulares da nova reação e sua aplicação ao conhecimento da doença, com a “estabilidade do antígeno”, reações atípicas em fixação do complemento no sistema sífilis e doença de Chagas”, “fixação com tríplice antígeno” e outros.

Em relação aos métodos destinados à demonstração dos parasitas, contribuiu com vários trabalhos em que são estudados os vários processos usados e mostra no estudo de 1947, ser o xenodiagnóstico o melhor entre eles. Estuda “O tempo ótimo para o exame de triatomíneos empregados neste método”, (1950); faz um “Estudo comparativo entre xenodiagnósticos praticados “in vitro” (1955); e ainda em 1955 estuda os “Aspectos morfológicos do Trypanossoma cruzzi e de outros parasitas de importância no diagnóstico da moléstia de Chagas”.

2) Clínica – Para o conhecimento clínico da doença de Chagas contribuiu o Prof. Pedreira de Freitas com vários estudos, dos quais citamos os principais: “Alterações cardíacas na doença de Chagas (1946) “sobre os aspectos hematológicos nas fases iniciais” (em col. com Jamra, Amato Neto e outros), e em 1949, em colaboração com o Prof. Jairo Ramos e outros, publica importante estudo clínico-epidemiológico sobre a tripanossomose americana, em que mostra superar a etiologia chagásica qualquer outra causa de cardiopatias em uma zona endêmica.

3) Transmissão – São numerosos e importantes os trabalhos publicados pelo patrono deste Centro Acadêmico, só ou em colaboração, com referência a este assunto tão importante que á a transmissão do Trypanossoma cruzzi, e assim mostra pela primeira vez a realidade da transmissão do parasita pela transmissão de sangue. Amplia, sem seguida, os conhecimentos sobre a presença de portadores do T.cruzzi entre doadores de sangue em vários bancos de sangue de São Paulo (1952, 1953) de Minas Gerais (1955, 1958) e se dedica com Nussenzweig, Biancalana e outros colaboradores, ao estudo de possibilidade de ser o sangue esterilizado “in vitro” pelo uso de substâncias químicas ou por meio de métodos físicos. Os trabalhos experimentais realizados (1953 a 1955) indicam ser a violeta de genciana droga muito eficaz e praticamente inócua na concentração recomendada. Em vários artigos e conferência, divulga o uso deste método para a profilaxia da transmissão da doença de Chagas por transfusão de sangue, prática hoje adotada em todos os serviços em que não é realizada a fixação do complemento. Em 1950 publicou um trabalho sobre a transmissão intrauterina da doença e nesse mesmo ano dá a lume importante estudo sobre os xenodiagnósticos praticados em reservatórios domésticos e silvestres em uma localidade endêmica. Verificação pioneira para o esclarecimento da importância dos reservatórios domésticos em certas localidades em contraposição com a escassez de reservatórios silvestres. Também os dados obtidos nesta investigação informam sobre a predominância de triatomíneos domiciliares na zona considerada, bem como a falta de vetores em certas regiões selvagens. Trabalho semelhante foi desenvolvido em 1951 em Ninas Gerais, no Município de Campo Florido.

4) Epidemiologia – Os numerosos estudos de laboratório concernentes ao diagnóstico da doença de Chagas, elaborados pelo Prof. Pedreira de Freitas, foram por ele desde logo aplicados na prática da Saúde Pública, pelo desenvolvimento de grande número de inquéritos epidemiológicos, realizados em várias localidades do nosso País e que constituíram a demonstração mais objetiva até então dada relativa a disseminação dessa infecção entre nossas populações rurais. Citaremos os principais: “Inquérito preliminar sobre a moléstia de Chagas em Cajurú (S.Paulo, 1946), idem no Município de Franca (S. Paulo, 1946), em Sorocaba (1948), em São Carlos (1950), no Município de Rio Verde (E. de Goiás, 1951), no Município de Echaporã (E. de S.Paulo, 1951), em vários municípios do Estado de Goiás (1951), no Município de Marília (S.Paulo, 1951).

Em 1961, realizam investigações epidemiológicas sobre triatomíneos domésticos e silvestres com o auxílio da reação de precipitina. Os resultados obtidos com este trabalho são de grande interesse, pois permitem melhor encarar a possibilidade da existência de raças domiciliar e silvestre de uma espécie.

5) Tratamento – Com referência a este item publica o Prof. Pedreira de Freitas uma revisão sobre a terapêutica da doença de Chagas (1952) e, em 1962, outra de maior importância, em que analisa a questão da sorologia na padronização dos métodos terapêuticos da doença de Chagas.

6) Profilaxia – Em 1950, nos primórdios do uso de inseticidas de efeito residual contra os triatomíneos, estudou o ilustre pesquisador, o valor comparativo do Rhodiatox (inseticida fosforado) e do Gamexane (inseticida clorado), mostrando o maior valor deste último composto. Em 1961, relata em trabalho feito em colaboração com Ferreira, Duarte e Haddad, os resultados obtidos com o combate intensivo aos triatomíneos em Cássia dos Coqueiros, revelando possuir o Dieldrin, aplicado sob a forma de pó molhável, na concentração de 1g por m2, ação anti-triatomínea mais fraca do que o BHC aplicado da mesma forma na concentração de 0,5 por m2. Chama a atenção sobre o perigo do uso do Dieldrin por possuir elevado poder tóxico para o homem e outros mamíferos e para as aves. Resultado importante este, principalmente naquele momento em que já se cogitava, entre nós, na sua aplicação em alta escala nas campanhas de profilaxia da doença de Chagas, em vista dos resultados obtidos em Venezuela e, também, devido a intensa campanha de seus fabricantes a favor do uso desta substância como inseticida. Mostra este trabalho a preocupação do cientista com a saúde do homem com o uso indiscriminado de inseticidas, principalmente os de ação residual, estudando com paciência e pertinácia incríveis, durante mais de seis anos a maneira de reinfestação das casas, a fim de poder ser preconizado um combate eletivo com os inseticidas atuais até que se descubra algum outro, mesmo não dotado de ação residual e que assim não tenha ação tóxica sobre os moradores das residências infestadas pelos “barbeiros”.

Tendo-se tornado, em virtude de seus numerosos e importantes trabalhos, autoridade inconteste nas questões pertinentes à doença de Chagas, viu-se o Prof. Pedreira de Freitas solicitado para proferir conferências, aulas e cursos, não só atinentes a este assunto, como também relativos à organização e ao ensino da Medicina Preventiva. Como grande cientista que era dava a mão a todos que o procuravam, distribuindo, sem olhar a quem, sem medir sacrifícios, seus conhecimentos científicos e técnicos, adquiridos pelo estudo e esforço constantes de uma vida inteiramente dedicada ao trabalho e à cultura. Foi extraordinariamente ativa sua vida neste setor; basta citar suas conferências, palestras, aulas, em que encara os mais diversos aspectos da endemia chagásica, perante numerosas Associações e Escolas Médicas como a Associação de Medicina de Franca (1945); Sociedade de Medicina de São Paulo (1949); Sociedade do Serviço do Prof. Celestino Bourrol (1949); Associação Paulista de Medicina (1950); Faculdade de Higiene de São Paulo (1948, 1950, 1958); Escola Paulista de Medicina (1949, 1958); Faculdade de Farmácia e Odontologia (1950); Santa Casa de Ribeirão Preto (1954); Sociedade de Medicina de Céres (Goiás, 1954); Faculdade de Medicina de Mendonza (Argentina, 1960); Sociedade de Medicina de Buenos Aires (1964); Instituto de Medicina Tropical de São Paulo (1962); Faculdade de Medicina de Montevidéu (1961), e outros que seria longo enumerar. Além disso participou de inúmeros Congressos Médicos, Simpósios, Mesas Redondas, divulgando os conhecimentos sobre a doença de Chagas e outras endemias brasileiras, tais como: 1 º Congresso Interamericano de Medicina (Rio de Janeiro, 1946); 1º Congresso Médico-Sanitário Regional de Sorocaba (1949); Simpósio sobre moléstia de Chagas (Ribeirão Preto, 1950); IV Congresso Médico do Triângulo Mineiro (Uberaba, 1950); II Congresso Médico do Brasil Central (Uberaba, 1950); V Reunião da Sociedade Brasileira de Cardiologia (Recife, 1948); VI Reunião da Sociedade Brasileira de Cardiologia (Rio, 1949); VII Reunião da Sociedade Brasileira de Cardiologia (Porto Alegre, 1950); IV Congresso Médico Interestadual (1949), IX Congresso Brasileiro de Higiene (Rio Grande do Sul 1951); I Congresso Interamericano de Higiene (Havana, 1957); IV Congresso Brasileiro de Hemoterapia e Hematologia (Recife, 1954); XI Semana Médica do Norte do Paraná (Londrina, 1955); Seminário sobre ensino de Medicina Preventiva (Chile, 1955); VIII Congresso Médico do Triângulo Mineiro e do Brasil Central (Uberaba, 1956); VI Jornada Paulista de Administração Hospitalar (1917); I Congresso da Associação Médica Brasileira (Ribeirão Preto, 1956); I Seminário Brasileiro sobre doença de Chagas (Paraíba, 1957); IX Congresso Médico do Brasil Central (Goiânia, 1958); Reunião de Estudos Internacionais sobre Epidemiologia (Cali, Colômbia, 1959); Congresso Internacional do Cinqüentenário da doença de Chagas (1959); Simpósio sobre Epidemiologia da Lepra (S.Paulo, 1960); III Congresso da Associação Internacional de Epidemiologia (Korcula, Yugoslávia, 1961); XI Congresso do Triângulo Mineiro e do Brasil Central (Uberaba, 1963), VII Congressos Internacionais de Medicina Tropical e Malária (Rio, 1963); Conferência Anual sobre Demografia e Saúde Pública (Nova Yorque, 1964) e muitos outros que seria longo citar.

Além dos trabalhos científicos sobre malária e doença de Chagas, já referidos, publicou ainda, o extraordinário e dinâmico pesquisador, outros estudos, abrangendo vários campos de ciência médica. Citaremos alguns: em 1946 descreve o primeiro caso de Sarcosporidiose humana observado no Brasil; estuda a fixação do complemento na esquistossomose pelo método quantitativo (em colaboração com J.Pellegrino, 1961). Realizou ainda várias conferências sobre assuntos que interessam à medicina preventiva, como o “Ensino de Medicina Preventiva e Social”, em Honduras, 1961; Formação do Médico e a Saúde Pública” na Escola de Saúde Pública da Universidade de Buenos Aires (1960); Vacinação anti-poliomielítica”, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.

Temos visto assim e de uma maneira sucinta a vida científica do ilustre patrono do Centro Acadêmico desta Faculdade de Medicina. Seus trabalhos apresentam grande mérito, não só pelas contribuições científicas trazidas, como por tratar-se de estudos desenvolvidos durante longos anos, segundo uma linha planejada de investigações laboratoriais e aplicações práticas que, se de um lado trouxeram larga contribuição à ciência, de outro, revelaram-se instrumentos imprescindíveis aos estudos de Saúde Pública e a profilaxia de uma das mais sérias endemias que ainda assolam nossas populações rurais – a doença de Chagas.

Para dar uma idéia de sua operosidade como pesquisador, basta dizer que publicou cerca de 70 trabalhos originais e realizou mais de 30 conferências abordando não só questões referentes à doença de Chagas, como às Verminoses, à Malária, ás Moléstias Transmissíveis, à Cultura Médica e ao Ensino Médico, Conquistou o Prof. Pedreira de Freitas vários prêmios científicos, como “Prêmio João Florêncio Gomes”, conferido pela Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, em 1947; em 1948 o Prêmio “Richard Pierce Jor”, conferido pela Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; em 1960 o Prêmio “José Pinto Alves”, conferido pela Associação Paulista de Medicina ao melhor trabalho sobre Parasitologia e em 1964 o Prêmio “Dr. Antenor Consoni”, outorgado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto para o melhor trabalho sobre doença de Chagas.

Eis, em rápido esforço, a vida científica do grande Professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, tão cedo arrebatado do nosso convívio e às lides científicas e universitárias. Percebia-se em Pedreira de Freitas não só o homem autêntico como o bondoso coração; se nos elevava é porque estava muito alto, sua alma formada, como todos se apercebiam ao primeiro contato, de nobres sentimentos, esquecimento de si constantemente impelido por impulsos generosos e desinteressados era, entretanto movido com destemor diante de uma situação que implicasse a defesa de um princípio justo, da liberdade individual ameaçada ou de um nobre ideal. Realista como era, sempre com os pés na terra, era no entanto homem de profunda fé católica romana, que o envolvia às vezes como que em uma aura de misticismo, misticismo este que quisemos expressar no seguinte trecho de um modesto artigo sobre sua vida e que publicamos no Jornal Brasileiro de Medicina Tropical: “No seu Departamento criou um ambiente de trabalho, amizade e cultura. Freqüentado não só por seus assistentes e médicos de outros Estados Brasileiros e por estrangeiros, mas ainda por numerosos estudantes dos últimos anos do curso médico, a todos tratava com ele comunicava uma certeza quase mística de que, no com carinho e com extrema polidez; sua simples presença infundia em todos seus alunos e colaboradores mais entusiasmo e mais vigor na realização das próprias tarefas, e o convívio constante com ele comunicava uma certeza quase mística de que, no final, a justiça, a paz e a liberdade seriam, no mundo, as forças vencedoras. Dele ouvimos várias vezes, o conceito de ser impossível cultivar a ciência a não ser em um clima de liberdade; liberdade de escolha do objetivo a pesquisar, liberdade de discussão e liberdade de expressão.

Os alunos desta Faculdade ao escolherem o nome do Professor Pedreira de Freitas como seu Patrono, naturalmente tomarão sua vida como exemplo. E como vimos, o que sempre norteou a vida do ilustre Patrono deste Centro foi: o trabalho constante e ininterrupto, o culto à Pátria e à Ciência e a retidão de um caráter autêntico que nunca se dobrou à imposição de outrem, mas sempre defendeu o direito dele e de qualquer outro homem ter sempre suas próprias convicções.