terça-feira, 27 de outubro de 2020

A escravidão em Araci no século XIX. Saiba mais!

imagem ilustrativa
imagem ilustrativa - https://jornal.usp.br

Arôvel Lima
Historiador

Conhecemos a máxima de que Araci foi fundado por "Zé Ferreira". Como historiador, defendo que Araci, na época, chamado de Raso, foi fundado por Zé Ferreira, Maria do Rosário e alguns negros vindos como  escravizados. Não é possível desagregar os escravizados da participação histórica que resultou na origem do município de Araci. Durante 76 anos, os escravos, na condição de dominados, ajudaram a construir o Araci que temos hoje. As primeiras ocupações dos negros escravizados foram abrir roçados derrubando a caatinga, cavar cacimbas para represar água e servir nos trabalhos domésticas da família CARVALHO. 

Em 1812, os escravizados foram abrigados em pequenas cabanas, próximo ao Tanque da Nação e representava a maior parcela dos moradores da fazenda Raso. Sendo assim, é possível afirmar que grande parte dos aracienses são descendentes desses primeiros escravos. Inúmeros outros escravos podem tem chegados de Serrinha nas décadas de 1840 e 1850 trazidos pelos irmãos Virgínio Eloy, Ângelo Pastor e João Ferreira, além de José Thomé que casou com Maria Fidélis, e Francisca Rosa, viúva de Antonio Manuel da Mota que regressou para Araci e se estabeleceu na Fazenda Tingui com inúmeros escravos. Os filhos de José Ferreira também tinham escravos, certamente, recebidos como "dote" ao casar.

Sobre a escravidão no interior no século XVIII -  entende-se que muitos negros fugiam do trabalho pesado nos Engenhos do Reconcavo Baiano e adentravam as caatingas, mesmo sem as mesmas técnicas de sobrevivência dos indígenas. A caatinga foi um grande obstáculo que dificultava a fuga dos escravizados. Eles não sabiam para onde ir e acabavam permanecendo nas grandes senzalas. Já os “poucos” escravos que arriscaram sobrevivência como fuga para o interior acabavam por buscar abrigo nas fazendas dos criadores de gado do interior. Ai continuavam a servir como escravos, mas em troca, de menos perseguição e castigos. 

Dessa forma, em 1860 já existiam "escravos de lavoura" nas fazendas Raso, Lameiro do Raso, Coqueiro, Madeiras, Camamu, Tingui, Caldeirão e Laranjeira. Os principais donos de escravos eram: José Ferreira, Ludovico, Maria Fidélis, Rita Constantina, Antônia, Francisca Rosa e Antônio da Mota, respectivamente, assim como Higino filho de Rosa do Tingui.

A relação entre os escravizados e seus senhores em Araci, apesar de não conhecer relatos da época, devia ser mais branda, sem perseguição ou castigos. É mais provável que a relação era de apadinhamento quando  os escravos trabalhavam para seus donos em troca do sustento de suas famílias ou um pedaço de terra com pouca ou nenhuma relação de comércio de escravos. Em algumas situações, os escravos iam se estabelecendo em fazendas vizinhas cedidas por seus senhores, especialmente, a partir das leis abolucionistas como a Lei do Ventre Livre em 1871 que já caracterizava o fim próximo para a escravidão. Ichu,  na região do Tingui, é exemplo de lugar originado por negrod escravizados.   

A escravidão é parte significativa da história de Araci apesar do tema ser, praticamente, desconhecido na atualidade. Não há nehuma homenagem aos negros que foram os principais personagens da luta braçal para desenvolver as terras do Raso com as melhorias que na época precisava. Em 1863, Zé Ferreira concluiu uma empreitada de abrir 60 km de estrada entre o Raso e Ouriçangas para interligar Alagoinhas a Monte Santo, tudo isso, com mão de obra escrava.

Os escravizados também trabalharam na construção da antiga Igreja Matriz, demolida em 1959. Cuidavam dos criatórios e faziam os tratos culturais na lavoura. Outra função era transportar mercadorias para os centros comerciais de Queimadas, Tucano, Serrinha e Alagoinhas, assim como, trazer outros mantimentos.

Os nomes de escravizados em Araci são totalmente desconhecidos, restando somente, o causo do escravo Rufino que descobriu a lagoa e moradores desconhecidos onde originou o povoado de Rufino, nome que seria uma homenagem ao escravo de Zé Ferreira, por volta de 1812. Mas pesquisas recentes, feita pelo historiador Arôvel, autor deste artigo, traz ao conhecimento a existência dos seguintes escravizados:

Escrava MARIA -  pertencia ao fundador de Araci José Ferreira de Carvalho e foi uma dos primeiros escravos que chegaram à fazenda Raso em 1812. A prova documental existência remete à data 1º de janeiro de 1839 quando ela foi madrinha de batismo de uma criança também nascida escrava filha de pais escravos da freguesia de Serrinha. Também os escravos que chegaram juntamente com José Ferreira de Carvalho,  por domínio deste, merecem o título honorífico de fundadores de Araci.

Fonte: Livro de  da freguesia de Serrinha em 1839.

Escravizada LOURÊNCIA MARIA DE JESUS - Era escravizada por Higino Mota e casou em 20 de dezembro de 1863 na capela do Raso com o negro "africano" livre chamado Manuel Ferreira, vulgo Carpina. O Casamento teria acontecido tardiamente, depois de terem constituído família. Nasceu por volta do ano de 1799. Não era natural da Bahia. Faleceu aos 120 anos de idade na fazenda Alto Alegre no dia 22 de julho de 1919 e havia deixado uma filha casada com Severiano Ferreira de Araújo.

Escravizada MARTINHA - morreu vitimada por febre aos 19 anos na Fazenda Tingui em 18 de janeiro de 1882;

Escravizada VERÍSSIMA - mãe de Martinha - pertencia a Ludovico e trabalhava na lavoura;

Escravizada BENEDICTA - era escrava de lavoura na Fazenda Coqueiro  e morreu aos 55 anos, em janeiro de 1881, vitimada por uma infecção na Fazenda "Coqueiro" e pertencia a Maria Fidélis.

Escravizada GALDINA -  Trabalhava nos serviços de lavoura na Fazenda Caldeirão e pertencia a João Ferreira de Oliveira, fundador e patriarca do Caldeirão; Galdina perdeu seu filho Romualdo com dois anos de idade, faleceu em 1º de maio de 1879 de morte natural.

Escravizada ANA  - faleceu em 05 de maio de 1881 aos 13 anos na Fazenda Tingui de fraqueza e pertencia a Francisca Rosa, filha de Zé Ferreira;

Escravizada BALBINA - Mãe da adolescente ANA

Escravizada MARIA - faleceu na fazenda Malhada Nova e servia a Francisca Rosa nos serviços de lavoura. Tinha 50 anos de idades.


OS ESCRAVIZADOS QUE AJUDARAM A CONSQUIR A HISTÓRIA DE ARACI, SERVINDO A SEUS SENHORES,TAMBÉM MERECEM SER LEMBRADOS TANTO QUANTO OS SEUS "DONOS" SÃO. 

Espero que o assunto escravidão em Araci não seja esquecido na história mas que seja dado a devida atenção. A submissão de pessoas às mazelas da escravidão é vergonhosa e, infelizmente, foi vista como normal por mais de 350 anos.

Uma forma de manter esses nomes lembrados é homenageá-los como nome de ruas. 


 

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Araci tinha a maior mina de ouro do Brasil na década de 1980, dizia Jornais.

Pesquisador Arôvel Lima
Historiador araciense

O ouro de Araci, há cerca de 100 anos, vem tendo repercussão nos jornais da Bahia e do Brasil mas, na prática, a transformação econômica da riqueza desse mineral, tido como abundante nas terras de Araci, não tem impactado positivamente na economia do nosso município. A inquietação é saber por que Araci continua em situação de miséria, vigorando entre os 20 municípios mais pobres da Bahia. 

Em 1923, nas comemorações do 02 de julho, os aracienses quiseram "ostentar" (rsrs) e enviaram ouro para representar as características do município nas exposições comemorativas do centenário de independência da Bahia. Foi designado para cada município o envio de alguma representação que caracterizasse a cultura ou riqueza natural e os aracienses não pouparam "status". Nquela época, falava-se do ouro no leito do rio Itapicuru em Araci.
 
Na segunda metade da década de 1970, estudos comprovaram a existência de uma grande reserva de ouro em Araci, localizado nas divisas ao sul. Em 28 de novembro de 1978, o Jornal do Brasil, com sede no Rio de Janeiro, noticiou a descoberta de ouro em Araci. A previsão inicial era de a mina recém descoberta começar a ser explorada em até dois anos. Em 14 de março de 1979, foi noticiado pelo mesmo jornal que os “trabalhos de pesquisa permitiram delimitar um corpo mineralizado a ouro, com teores econômicos, numa extensão de 4,5 km, no local denomindado Área Weber”. Weber foi um dos pesquisadores  da Docegeo homenageado depois de morrer em um acidente automobilistico em serviço. 

 Em 1979, com a grande descoberta de ouro em Araci e a repercussão nacional, levantou-se o debate para a criação de uma empresa estatal nesse setor. De acordo com o jornal, “fontes oficiais do setor mineral confirmaram, ontem, a descoberta pela Docegeo de uma reserva de ouro no município de Araci, na Bahia, que possivelmente, será a maior do País” e acrescentou que, com essa descoberta, cogita-se "criar uma empresa estatal, a OUROBRÁS para administrar a produção do metal”. 

 Em fevereiro de 1980 o "ouro de Araci" que fez subir as ações da mineradora, impactou negativamente a maioria das ações na bolsa de valores de São Paulo devido rumores de alarde (exageros) feito pela empresa mineradora. Havia muito expectativa no ouro de Araci e qualquer notícia podia interferir na Bolsa. Jornais noticiavam que a  reserva de Araci chegava a 50 mil quilos de ouro (riqueza grandessíssima) . Araci era para está amplamente desenvolvido com tamanha riqueza, mas, obviamente os royaltes, resultante do imposto da mineração, nunca representou grande coisa. 

O prefeito Erasmo Carvalho, nos idos de 1984, não fez boa negociação para obtenção dos royaltes. Primeiramente, foi corrigido que a mina de Araci, na verdade ficava em Teofilândia. De fato, Araci sempre foi usurpado perdendo território para municípios vizinhos e pior, com a omissão de nossos políticos. A última perda ocorreu em 2015. 30 km2 a menos e só o autor desse blog fez menção. A verdade seja dita! Dentre os municipios reclamantes pela fortuna do "ouro da mina de Araci, estavam também Teofilandia e Serrinha. Afinal, a área de exploração estava na divisa desses três municípios. Assim, alguns vereadores acusaram Erasmo de ser um fracassado negociador pois fechou acordo para  Araci receber somente 25% dos royaltes, ficando 75% para Teofilândia e Serrinha (hoje, Barrocas). 

Os vereadores ficaram irritados pois, em nenhum momento o prefeito Erasmo, incluiu a Câmara nessa importante negociação. Em 1984, quando a exploração comercial ia ser iniciada, objetivando os repasses do imposto sobre a exploração do ouro, o jornal do Brasil intitulou uma matéria que dizia "Três prefeituras disputam terras". Erasmo, já cansado da vida pública, resolveu sozinho quanto aos limites de Araci. Por fim, somente ficou para Araci a parte ourífera referente ao riacho pau a pique, equivalente a 25% das expectativas de exploração. Já a Fazenda Brasileiro, maior reserva, constatou-se que pertencia a Teofilândia, sem audiências formais . 

 Foi também o ouro, um dos motivos, do "impeachmant" que afastou o prefeito Erasmo da prefeitura.  O vereador Grênivel Moura (maior exemplo de Tribuna, orador inigualável) foi um dos principais mentores. Muitos vereadores acharam que Erasmo não estava mais no auge das suas 'faculdades mentais' devido a sua avançada idade. Assim pesou a sétima acusação no processo de cassação de Erasmo: má condução das negociações e negligências do setor jurídico na divisão dos impostos decorrentes da exploração de ouro nas áreas de divisas intermunicipais, tendo feito “acordo claramente prejudicial aos interesses do município, quando apesar da mina situada nos arredores da Fazenda Brasileiro, legalmente em território araciense, pertencer a este município, o sr. Prefeito municipal assinou hediondo acordo para ficarmos apenas com 25% dos impostos gerados, acordo este em que não houve, sequer, uma consulta à Câmara Municipal”. 

 Fontes com o autor .